A arte de equilibrar desporto e vida pessoal com sucesso

É perfeitamente possível encontrar um equilíbrio, mas é preciso fazer alguns sacrifícios.
Tempo de leitura: 5 min Oct 16, 2026
A arte de equilibrar desporto e vida pessoal com sucesso
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    Ao olharem para os profissionais, muitos atletas amadores dizem que eles têm a vida facilitada, já que o seu dia gira praticamente todo em torno do treino e da preparação do corpo para o esforço.

    É verdade. Mas, mesmo com todos os desafios do dia a dia, podes ser um atleta de alto nível. A questão está em encontrar o equilíbrio certo e abdicar de algumas coisas.

    Borja Jelič é a prova disso. Percebeu o que era realmente importante para ele e do que conseguia abdicar. Isso ajudou-o a afirmar-se como um dos melhores ciclistas amadores do mundo, com cinco títulos nacionais e um título de vice-campeão mundial.

    Borja Jelič at the top step of the podumBorja Jelič está habituado a subir ao lugar mais alto do pódio.

    Admite que muitas vezes não há horas suficientes no dia para fazer tudo o que gostaria. Entre o trabalho e os treinos, sobra pouco tempo para o resto.

    “O ciclismo ocupa muito tempo. Tens de treinar, mas aquelas 2 ou 3 horas em cima da bicicleta são apenas uma parte. Tens de te preparar antes e tratar de tudo depois do treino. Estás cansado e precisas de descansar”, explica Borja, salientando que, ao contrário dos profissionais, tens de tratar de tudo sozinho.

    “Ainda há pouco tempo, furei um pneu durante uma prova depois de passar por cima de uns vidros. Sou eu que tenho de ir comprar um pneu novo e depois trocá-lo. Tens de tratar de tudo sozinho.”

    “Se gostas disso e tens os conhecimentos e a capacidade para fazer a maior parte das coisas sozinho, então não há problema”, acrescenta Borja. E salienta que é importante aprender a reparar o máximo de coisas possível sozinho. Caso contrário, a bicicleta pode passar demasiado tempo na oficina, o que prejudica os treinos e ainda custa dinheiro.

    Um trabalho flexível é essencial

    Para a maioria das pessoas, o trabalho e a família são, além do treino, duas das atividades que mais tempo ocupam. Conciliar as três sem que pelo menos uma delas fique prejudicada é difícil.

    Ficar no escritório até ao final da tarde rouba tempo à bicicleta. Fazer todos os treinos ao fim do dia é difícil, se não mesmo impossível, sobretudo no inverno.

    A solução é um trabalho que não exija a tua presença física no escritório.

    Borja tem a sorte de ter um trabalho flexível, realizado maioritariamente à distância. Isso permite-lhe treinar de manhã entre reuniões ou durante a hora de almoço.

    “Felizmente, tenho um trabalho que me dá muita flexibilidade. Sei que é um privilégio. Não passo horas sentado no escritório. Trabalho sobretudo a partir de casa porque trabalho para empresas estrangeiras. Faço tudo remotamente”, explica. Normalmente, aproveita para treinar quando os outros vão almoçar.

    Training during work hoursTreina muitas vezes durante as pausas do trabalho e chega até a participar em reuniões enquanto está na bicicleta.

    “Sou responsável pela equipa de desenvolvimento. Isso permite-me estar na bicicleta até durante o horário de trabalho. Muitas vezes, quando vejo que tenho duas horas livres ou quando os outros vão almoçar, pego na bicicleta e vou treinar. Eles demoram cerca de uma hora a almoçar e eu fico um pouco mais de tempo e faço o meu treino.”

    Se alguma vez vires um ciclista de auscultadores, a comer géis e a sofrer numa subida, é bem possível que seja o Borja. Muitas vezes, participa em reuniões durante o treino, sobretudo naquelas em que não precisa de intervir ativamente.

    “Já houve muitas vezes em que participei em reuniões com o equipamento de ciclismo vestido ou até em cima da bicicleta. Ponho os auscultadores, desligo a câmara e estou presente. Há muitas reuniões em que só precisas de ouvir. Por exemplo, estou numa subida a ouvir e, se me fizerem uma pergunta, recupero um pouco o fôlego, respondo e continuo.”

    “Tenho sorte por conseguir funcionar desta forma. Se tens um trabalho a tempo inteiro num escritório, é extremamente difícil. Sobretudo se tiveres família.”

    Nem todos têm a flexibilidade de Borja. Por isso, quem quer alcançar resultados de alto nível tem de perceber onde consegue encontrar tempo no seu dia para treinar.

    A vida social praticamente desaparece

    A vida social é outra peça importante do puzzle que acaba por ficar para trás quando te dedicas a sério aos treinos. As noites fora e as horas passadas com amigos transformam-se em horas em cima da bicicleta.

    “A vida social é a primeira coisa que eliminas ou aquela que acaba por sofrer mais”, explica Borja, que passa a maioria das tardes a treinar ou a recuperar das sessões da manhã.

    Borja Jelič socializing with friends A maior parte do convívio acontece em cima da bicicleta ou depois do treino.

    Isso não significa que todos os minutos livres sejam dedicados ao treino. Claro que existe algum tempo livre, mas é difícil usá-lo para conviver, porque isso também exige uma certa quantidade de energia.

    “Mesmo quando tens tempo e podias ir beber um copo, estás tão cansado que acabas por não ir e preferes ir dormir”, explica.

    Praticar ciclismo amador a um nível elevado exige dedicação total e muitos sacrifícios. É difícil ser um atleta de alto nível, passar horas a trabalhar e, ao mesmo tempo, ter uma vida social muito ativa.

    Tens de identificar as áreas da tua vida que são mais importantes para ti e aquelas das quais estás disposto a abdicar. Todas as vitórias exigem sacrifícios.

    Descobre o que te faz feliz

    Quando falamos em abdicar de alguma coisa, tendemos a pensar que vamos ficar a perder. Mas não é necessariamente assim. Trata-se de dedicar tempo àquilo de que realmente gostas.

    O mais importante é descobrir o que te faz feliz e te ajuda a manter o equilíbrio na tua vida.

    Borja percebeu que a vida em cima da bicicleta, os inúmeros quilómetros e os momentos difíceis de esforço são aquilo que o faz feliz. Não fica triste por não ir beber um copo com tanta frequência. Prefere passar tempo com os amigos em cima da bicicleta.

    Vai continuar a pedalar mesmo quando deixar de competir. É isso que o faz feliz e continuará a fazê-lo feliz. Talvez passe a pedalar com menos frequência e tenha mais tempo para a vida social, mas a bicicleta continuará sempre por perto.

    “Vou andar de bicicleta toda a vida. Provavelmente deixarei de competir, mas vou continuar sempre a pedalar porque é algo de que gosto mesmo.”

    “Para mim, deixando as competições de lado, a bicicleta representa um equilíbrio em relação ao meu trabalho. No trabalho, estás sempre sentado à frente de um computador, a uma secretária e fechado num espaço interior. A bicicleta é exatamente o oposto. Por isso, as duas coisas complementam-se bem”, acrescenta com um grande sorriso.

    Conclusão

    Para te tornares realmente bom em qualquer área, precisas de muita dedicação e de fazer sacrifícios. No desporto amador não é diferente. Na verdade, as exigências da vida quotidiana podem obrigar-te a fazer ainda mais escolhas.

    O trabalho ocupa grande parte do nosso dia. Por isso, o ideal é teres um emprego que ofereça horários flexíveis e te permita adaptar o teu dia de trabalho. Assim, surgem oportunidades para treinar enquanto a maioria das pessoas ainda está no escritório.

    Não há sucesso sem sacrifícios. A vida social é uma das áreas que mais acaba por sofrer. Mas há outras formas de conviver, incluindo durante os próprios treinos.

    No final, o que realmente importa é aquilo que te faz feliz. Algumas pessoas preferem preservar as noites para estar com os amigos e a família e, como consequência, passam menos tempo a treinar. Outras não têm qualquer problema em reduzir as horas de convívio e encontram satisfação nas vitórias conquistadas graças ao tempo e ao esforço que dedicam aos treinos.